Infância Pobre
#7 - Roupas de Barbie

Se a Lígia tinha Marbies, a minha coleção era mista. Tinha Barbies, Marbies e uma Xuxa. Mas eram aquelas com as roupinhas mais fuleiras, tubinhos estampados de alcinha, essas coisas.

Tem muita menininha que encontrou a vocação para moda fazendo vestidos para as Barbies. Mas infância pobre é usar como matéria prima para haute couture de boneca meias furadas e cadarços. As minhas Barbies se vestiam que nem a Ariel coleção sabidão.

É da Elka, vende até hoje. E não é que eu descobri um cara que faz umas coisas bonitinhas com Pinos Mágicos?

É da Elka, vende até hoje. E não é que eu descobri um cara que faz umas coisas bonitinhas com Pinos Mágicos?

#6 - O “Lego”

Lego é tão legal, né? Po, baldões de Lego, kits para construir o mundo de Lego, casinhas de Lego, bichinhos de Lego, capas de disco de Lego…

Eu nunca tive Lego.

Nunca.

Além de meio pobretões, meus pais eram meio hippies e meio construtivistas e meio comunistas (não, comunistas não). Mas eles achavam que marcas não eram importantes (concordo) e que sempre há um genérico para substituir o hit do momento (discordo).

Então meus pais achavam que tudo bem eu não ter Lego, porque eu tinha… PINOS MÁGICOS.

Porra, ninguém nunca fez uma capa de discos de Pinos Mágicos. Não tem pen drive em forma de pinos mágicos, nem camiseta homenageando os Pinos Mágicos. Ninguém das classes A e B sabe o que é Pinos Mágicos, por Deus!

Por que eles achavam que ia ser legal brincar de Pinos Mágicos quando o que eu queria era um Lego?!

Hoje eu brinco com os Legos do meu sobrinho :~

lembro até do cheiro dessa desgraça.

lembro até do cheiro dessa desgraça.

#5 - A lancheira

Lá em casa éramos 3 irmãos em idade escolar. E era época de inflação galopante, né? Anos 80, coisa e tal.

Então tudo que meus pais podiam comprar no atacado, eles compravam. Sabonete, xampu, CREME RINSE, caderno, lápis, etc e tal.

Aí num ano eles descobriram que dava pra comprar lancheira no atacado. Sabe como é criança, quebra uma lancheira por semana. Eles comparam um pacote com sei lá, 50 lancheiras! Meio bizarras, de plástico mole, azul-calcinha. Não fechavam direito, e tinham as garrafinhas mais toscas do MUNDO.

Sabe, era muito triste ir pra escola de playboys onde eu estudava com aquela lancheira indigna. Meus coleguinhas tinham lancheiras da Barbie, da Menina-Flor, do Querido Pônei… a minha era tosca.

Tão tosca que o Tang de uva sempre vazava nas minhas rosquinhas Seven Boys :(

Nem sei quantas vezes fiquei sem lanche.

#4 - A escola pública

Eu fui para a escola pública em 1992. Quarta série do então primeiro grau.

Meus pais não tinham mais dinheiro para a escola particular, e a escola pública era perto de casa, viver um pouco da realidade das ruas não ia fazer muito mal.

Primeiro dia de aula. Toca o sinal que indicava o fim do recreio. Eu, pobre e inocente menina, peguei minha lancheira e fui para a sala de aula.

Na lousa, a AMEAÇA.
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EU TENHO UMA GATA NESSA SALA
E O NOME DELA É
LIGIA
ass: REPETENTE 5 ANOS MAIS VELHO

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Meu coração quase parou de pânico e horror. Apaguei a lousa com as mãos tremendo. ALOU, EU TENHO DEZ ANOS!!!!!!!

Foi horrível. Só sosseguei quando me transferiram da quarta B para a quarta A. Aí sim. Comecei a viver as dores e delícias da escola pública.

Se aprendi sobre a realidade das ruas? Opa, é nóis. Mas em matemática, só sei somar, subtrair, multiplicar e dividir, confesso.

Vida loka, mano.

(foto meramente ilustrativa, mas minha escola era IGUALZINHA)

Vida loka, mano.

(foto meramente ilustrativa, mas minha escola era IGUALZINHA)

#3 - a Marbie

Depois do governo Collor, as crianças nem sabem mais direito que existe um país chamado Paraguai. Mas nos anos 80, o Paraguai era um popular destino de férias para as famílias remediadas brasileiras.

Certa vez fomos para lá. Mamãe comprou uma sacola de ráfia colorida, papai alugou uma Marajó. Atravessamos a fronteira. Papai e mamãe gastaram suas economia em estojos com mil compartimentos, canetas de 10 cores, réguas holográficas, pulseira bate-enrola e molas malucas.

E ela. Linda. Loura. Com bordinha de plástico duro e um braço que não dobrava por nada nesse mundo. A Marbie. A versão genérica da Barbie.

Brinquei com ela por muitos e muitos anos.

Papai não me dava as bonecas de graça não. 
Eu tinha 6 anos. 
Ele usou as bonecas pra me ensinar a nadar. 
Cada piscina que eu nadasse de ponta a ponta sem agarrar na bordinha, era uma MARBIE.

Não é por nada não, mas funcionou: hoje eu nado que nem uma SEREIA :P.

(foto meramente ilustrativa, as minhas Marbies foram doadas para a Casa André Luiz)

Papai não me dava as bonecas de graça não.
Eu tinha 6 anos.
Ele usou as bonecas pra me ensinar a nadar.
Cada piscina que eu nadasse de ponta a ponta sem agarrar na bordinha, era uma MARBIE.

Não é por nada não, mas funcionou: hoje eu nado que nem uma SEREIA :P.

(foto meramente ilustrativa, as minhas Marbies foram doadas para a Casa André Luiz)

Dizia que tinha CONTINUOUS PLAY, de uma fita pra outra, mas nunca consegui fazer funcionar

(foto meramente ilustrativa. o meu era CCE. tinha double deck)

Dizia que tinha CONTINUOUS PLAY, de uma fita pra outra, mas nunca consegui fazer funcionar

(foto meramente ilustrativa. o meu era CCE. tinha double deck)